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sábado, 2 de junho de 2012

O Livro dos Espíritos - INTRODUÇÃO


O Livro dos Espíritos
PRINCÍPIOS DA DOUTRINA ESPÍRITA
sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens,
as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade - segundo os
ensinos dados por Espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns - recebidos e
coordenados
P O R
ALLAN KARDEC
I N T R O D U Ç Ã O
ao estudo da
DOUTRINA ESPÍRITA
I
Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza
da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras.
Os vocábulos espiritual, espiritualista, espiritualismo têm acepção bem definida. Dar-lhes
outra, para aplicá-los à doutrina dos Espíritos, fora multiplicar as causas já numerosas de
anfibologia. Com efeito, o espiritismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite
haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém,
que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível.
Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que
Vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido
radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis,
deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a
doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com
os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas,
ou, se quiserem, os espiritistas.
Como especialidade, o Livro dos Espíritos contém a doutrina espírita; como
generalidade, prende-se à doutrina espiritualista, uma de cujas fases apresenta. Essa a
razão porque traz no cabeçalho do seu título as palavras: Filosofia espiritualista.
II
Há outra palavra acerca da qual importa igualmente que todos se entendam, por
constituir um dos fechos de abóbada de toda doutrina moral e ser objeto de inúmeras
controvérsias, à míngua de uma acepção bem determinada. É a palavra alma.
A divergência de opiniões sobre a natureza da alma provém da aplicação particular que cada um dá a esse termo.
 Uma língua perfeita, em que cada ideia fosse expressa por um termo próprio, evitaria
muitas discussões.
Segundo uns, a alma é o princípio da vida material orgânica. Não tem existência
própria e se aniquila com a vida: é o materialismo puro. Neste sentido e por comparação,
diz-se de um instrumento rachado, que nenhum som mais emite: não tem alma. De
conformidade com essa opinião, a alma seria efeito e não causa.
Pensam outros que a alma é o princípio da inteligência, agente universal do qual
cada ser absorve uma certa porção. Segundo esses, não haveria em todo o Universo
senão uma só alma a distribuir centelhas pelos diversos seres inteligentes durante a vida
destes ,voltando cada centelha, mortos ou seres, à fonte comum, a se confundir com o
todo,como os regatos e os rios voltam ao mar, donde saíram. Essa opinião difere da precedente em que,
nesta hipótese, não há em nós somente matéria, subsistindo alguma coisa após a morte.
Mas é quase como se nada subsistisse, porquanto, destituídos de individualidade, não m
mais teríamos consciência de nós mesmos. Dentro desta opinião, a alma universal seria Deus,
e cada ser um fragmento da divindade. Simples variante do panteísmo.
Segundo outros, finalmente, a alma é um ser moral, distinto, independente da
matéria e que conserva sua individualidade após a morte. Esta acepção é, sem  
contradita a mais geral, porque, debaixo de um nome ou de outro, a ideia desse ser que sobrevive ao
corpo se encontra, no estado de crença instintiva, não derivada de ensino, entre todos os
povos, qualquer que seja o grau de civilização de cada um. Essa doutrina, segundo a
qual a alma é causa e não efeito, é a dos espiritualistas.
Sem discutir o mérito de tais opiniões e considerando apenas o lado linguístico da
questão, diremos que estas três aplicações do termo alma correspondem a três ideias
distintas, que demandariam, para serem expressas, três vocábulos diferentes. Aquela
palavra tem, pois, tríplice acepção e cada um, do seu ponto de vista, pode com razão defini-la como o faz. O mal está em a
língua dispor somente de uma palavra para exprimir três ideias. A fim de evitar todo
equívoco, seria necessário restringir-se a acepção do termo alma a uma daquelas ideias.
A escolha é indiferente; o que se faz mister é o entendimento entre todos reduzindo-se o
problema a uma simples questão de convenção. Julgamos mais lógico tomá-lo na sua
acepção vulgar e por isso chamamos ALMA ao ser imaterial e individual que em nós reside
e sobrevive ao corpo. Mesmo quando esse ser não existisse, não passasse de produto da
imaginação, ainda assim fora preciso um termo para designá-lo.
Na ausência de um vocábulo especial para tradução de cada uma das outras ideias a
que corresponde a palavra alma, denominamos:
Princípio vital o princípio da vida material e orgânica, qualquer que seja a fonte
donde promane, princípio esse comum a todos os seres vivos, desde as plantas até o
homem. Pois que pode haver vida com exclusão da faculdade de pensar, o princípio vital é
uma propriedade da matéria, um efeito que se produz achando-se a matéria em dadas
circunstâncias. Segundo outros, e esta é a ideia mais comum, ele reside em um fluido
especial, universalmente espalhado e do qual cada ser absorve e assimila uma parcela
durante a vida, tal como os corpos inertes absorvem a luz. Esse seria então o fluido vital
que, na opinião de alguns, em nada difere do fluido elétrico animalizado, ao qual
também se dão os nomes de fluido magnético, fluido nervoso, etc.
Seja como for, um fato há que ninguém ousaria contestar, pois que resulta da
observação: é que os seres orgânicos têm em si uma forma íntima que determina o
fenômeno da vida, enquanto essa força existe; que a vida material é comum a todos os seres
orgânicos e independe da inteligência e do pensamento; que a inteligência e o pensamento
são faculdades próprias de certas espécies orgânicas; finalmente, que entre as espécies
orgânicas dotadas de inteligência e de pensamento há uma dotada também de um senso
moral especial, que lhe dá incontestável superioridade sobre as outras: a espécie humana.
Concebe-se que, com uma acepção múltipla, o termo alma não exclui o
materialismo, nem o panteísmo. O próprio espiritualismo pode entender a alma de
acordo com uma ou outra das duas primeiras definições, sem prejuízo do Ser imaterial distinto,
a que então dará um nome qualquer. Assim, aquela palavra não representa uma opinião: é um Proteu, que cada um ajeita a seu bel-prazer. Daí tantas disputas intermináveis.
Evitar-se-ia igualmente a confusão, embora usando-se do termo alma nos três casos,
desde que se lhe acrescentasse um qualificativo especificando o ponto de vista em que
se está colocado, ou a aplicação que se faz da palavra. Esta teria, então, um caráter genérico,
designando, ao mesmo tempo, o princípio da vida material, o da inteligência e o do
senso moral, que se distinguiriam mediante um atributo, como os gases, por exemplo,
que se distinguem aditando-se ao termo genérico as palavras hidrogênio, oxigênio ou azoto.
Poderse-ia ,assim dizer, e talvez fosse o melhor, a alma vital - indicando o princípio da
Vida material; a alma intelectual - o princípio da inteligência, e a alma espírita - o da
Nossa individualidade após a morte. Como se vê, tudo isto não passa de uma questão de palavras,
mas questão muito importante quando se trata de nos fazermos entendidos. De
conformidade com essa maneira de falar, a alma vital seria comum a todos os seres
orgânicos: plantas, animais e homens; a alma intelectual pertenceria aos animais e aos
homens; e a alma espírita somente ao homem.
Julgamos dever insistir nestas explicações pela razão de que a doutrina espírita
repousa naturalmente sobre a existência, em nós, de um ser independente da matéria e que
que sobrevive ao corpo. A palavra alma, tendo que aparecer com frequência no curso
desta obra, cumpria fixássemos bem o sentido que lhe atribuímos, a fim de evitarmos qualquer engano.


.
Passemos agora ao objeto principal desta instrução preliminar.

III
Como tudo que constitui novidade, a doutrina espírita conta com adeptos e
contraditores. Vamos tentar responder a algumas das objeções destes últimos, examinando
o valor dos motivos em que se apoiam, sem alimentarmos, todavia, a pretensão de
convencer a todos, pois muitos há que creem ter sido a luz feita exclusivamente para eles.
Dirigimo-nos aos de boa-fé, aos que não trazem ideias preconcebidas ou decididamente
firmadas contra tudo e todos, aos que sinceramente desejam instruir-se e lhes
demonstraremos que a maior parte das objeções opostas à doutrina promanam de
incompleta observação dos fatos e de juízo leviano e precipitadamente formado.
Lembremos, antes de tudo, em poucas palavras, a série progressiva dos fenômenos
que deram origem a esta doutrina.
O primeiro fato observado foi o da movimentação de objetos diversos. Designaram -no
vulgarmente pelo nome de mesas girantes ou dança das mesas. Este fenômeno, que
parece ter sido notado primeiramente na América, ou melhor, que se repetiu nesse país,
porquanto a História prova que ele remonta à mais alta antiguidade, se produziu rodeado
de circunstâncias estranhas, tais como ruídos insólitos, pancadas sem nenhuma causa
ostensiva. Em seguida, propagou-se rapidamente pela Europa e pelas partes do mundo.
A princípio quase que só encontrou incredulidade, porém, ao cabo de pouco tempo, a
multiplicidade das experiências não mais permitiu lhe pusessem em dúvida a realidade.
Se tal fenômeno se houvesse limitado ao movimento de objetos materiais, poderia
explicar-se por uma causa puramente física. Estamos longe de conhecer todos os agentes
agentes ocultos da Natureza, ou todas as propriedades dos que conhecemos: a eletricidade
multiplica diariamente os recursos que proporciona ao homem e parece destinada a iluminar
a Ciência com uma nova luz. Nada de impossível haveria, portanto, em que a eletricidade
modificada por certas circunstâncias, ou qualquer outro agente desconhecido, fosse a
causa dos movimentos observados. O fato de que a reunião de muitas pessoas aumenta a
potencialidade da ação parecia vir em apoio dessa teoria. Visto poder-se considerar o
conjunto dos assistentes como uma pilha múltipla, com o seu potencial na razão direta
do número dos elementos.
O movimento circular nada apresentava de extraordinário: está na Natureza. Todos
os astros se movem em curvas elipsoides; poderíamos, pois, ter ali, em ponto menor, um
reflexo do movimento geral do Universo, ou, melhor, uma causa, até então desconhecida,
produzindo acidentalmente, com pequenos objetos em dadas condições, uma corrente
análoga à que impele os mundos.
Mas, o movimento nem sempre era circular; muitas vezes era brusco e desordenado,
sendo o objeto violentamente sacudido, derrubado, levado numa direção qualquer e,
contrariamente a todas as leis da estática, levantando e mantido em suspensão. Ainda
aqui nada havia que se não pudesse explicar pela ação de um agente físico invisível, Não vemos
a eletricidade deitar por terra edifícios, desarraigar árvores, atirar longe os mais pesados
corpos, atraí-los ou repeli-los?
Os ruídos insólitos, as pancadas, ainda que não fossem um dos efeitos ordinários da
dilatação da madeira, ou de
qualquer outra causa acidental, podiam muito bem ser produzidos pela acumulação de
um fluido oculto: a eletricidade não produz formidáveis ruídos?
Até aí, como se vê, tudo pode caber no domínio dos fatos puramente físicos e
fisiológicos. Sem sair desse âmbito de ideias, já ali havia, no entanto, matéria para
estudos sérios e dignos de prender a atenção dos sábios. Por que assim não aconteceu? É penoso
dizê-lo, mas o fato deriva de causas que provam, entre mil outros semelhantes, a leviandade
do espírito humano. A vulgaridade do objeto principal que serviu de base às primeiras
experiências não foi alheia à indiferença dos sábios. Que influência não tem tido muitas
vezes uma palavra sobre as coisas mais graves!
Sem atenderem a que o movimento podia ser impresso a um objeto qualquer, a idéia
das mesas prevaleceu, sem dúvida, por ser o objeto mais cômodo e porque, à roda de
uma mesa, muito mais naturalmente do que em torno de qualquer outro móvel, se sentam
diversas pessoas. Ora, os homens superiores são com frequência tão pueris que não há
como ter por impossível que certos espíritos de escol hajam considerado deprimente
ocuparem-se com o que se convencionara chamar a dança das mesas. É mesmo provável
que se o fenômeno observado por Galvâni o fora por homens vulgares e ficasse
caracterizado por um nome burlesco, ainda estaria relegado a fazer companhia à varinha
mágica. Qual, com efeito, o sábio que não houvera julgado uma indignidade ocupar-se com a dança das rãs?


Alguns, entretanto, muito modestos para convirem em que bem poderia dar-se não
lhes ter ainda a Natureza dito a última palavra, quiseram ver, para tranquilidade de suas
consciências. Mas aconteceu que o fenômeno nem sempre lhes correspondeu à expectativa
e, do fato de não se haver produzido constantemente à vontade deles e segundo a maneira
de se comportarem na experimentação, concluíram pela negativa. Mau grado, porém, ao
que decretaram, as mesas - pois que há mesas - continuam a girar e podemos dizer com
Galileu: todavia, elas se movem! Acrescentaremos que os fatos se multiplicaram de tal
modo que desfrutam hoje do direito de cidade, não mais se cogitando senão de lhes achar
uma explicação racional.
Contra a realidade do fenômeno, poder-se-ia induzir alguma coisa da circunstância
de ele não se produzir de modo sempre idêntico, conformemente à vontade e às exigências
do observador? Os fenômenos de eletricidade e de química não estão subordinados a certas
condições? Será lícito negá-los,

 porque não se produzem fora dessas condições? Que há, pois, de surpreendente em
que o fenômeno do movimento dos objetos pelo fluido humano também se ache sujeito
a determinadas condições e deixe de se produzir quando o observador, colocando-se no seu
ponto de vista, pretende fazê-lo seguir a marcha que caprichosamente lhe imponha, ou
queira sujeitá-lo às leis dos fenômenos conhecidos, sem considerar que para fatos novos
pode e deve haver novas leis? Ora, para se conhecerem essas leis, preciso é que se
estudem as circunstâncias em que os fatos se produzem e esse estudo não pode deixar de ser fruto de
observação perseverante, atenta e às vezes muito longa.
Objetam, porém, algumas pessoas: há frequentemente fraudes manifestas.
Perguntar-lhes-emos, em primeiro lugar, se estão bem certas de que haja fraudes e se
não tomaram por fraude efeitos que não podiam explicar, mas ou menos como o camponês que
tomava por destro escamoteador um sábio professor de Física a fazer experiências.
Admitindo-se mesmo que tal coisa tenha podido verificar-se algumas vezes, constituiria
isso razão para negar-se o fato? Dever-se-ia negar a Física, porque há prestidigitadores
que se exornam com o título de físicos? Cumpre, ao demais, se leve em conta o caráter
das pessoas e o interesse que possam ter em iludir. Seria tudo, então, mero gracejo? Admite-se
 que uma pessoa se divirta por algum tempo, mas um gracejo prolongado indefinidamente se
tornaria tão fastidioso para o mistificador, como para o mistificado. Acresce que, numa
mistificação que se propaga de um extremo a outro do mundo e por entre as mais
austeras ,veneráveis e esclarecidas personalidades, qualquer coisa há, com certeza, tão extraordinária,
pelo menos, quanto o próprio fenômeno.


CONTINUA NA PRÓXIMA POSTAGEM...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

AS MESAS GIRANTES














AS MESAS GIRANTES






Curso de Introdução ao Espiritismo ( Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec )



A história das irmãs Fox se divulgou rapidamente, e de todas as partes tiveram lugar manifestações do que se chamava então de telegrafia espiritual. Cansou-se logo desse procedimento tão incômodo, e os próprios batedores indicaram um novo modo de comunicação. Era necessário simplesmente se reunir ao redor de uma mesa, colocar as mãos em cima, e em se erguendo, enquanto se recitava o alfabeto, a mesa bateria um golpe a cada uma das letras que o Espírito queria dar. Esse procedimento, se bem que muito lento, produzia excelentes resultados, e se tinha, assim, as mesas girantes e falantes.

É preciso dizer que a mesa não se limitava a se elevar sobre um pé para responder às questões que se lhe colocavam; ela se agitava em todos os sentidos, girava sob os dedos dos experimentadores, algumas vezes se elevava no ar, sem que se pudesse ver a força que a mantinha assim suspensa. De outras vezes as respostas eram dadas por meio de pequenos golpes, que se ouviam no interior da madeira. Esses fatos estranhos chamaram a atenção geral e logo a moda das mesas girantes invadiu a América inteira.

A mesa ensinou um novo procedimento mais rápido. Sob suas indicações, se adaptou a uma prancheta triangular três pés munidos de rodinhas, e a um deles, se prendeu um lápis, colocou-se o aparelho sobre uma folha de papel, e o médium colocava as mãos sobre o centro dessa pequena mesa. Via-se então o lápis traçar letras, depois frases, e logo essa prancheta escrevia com rapidez e dava mensagens. Mais tarde ainda, se percebeu que a prancheta era de fato inútil, e que seria suficiente ao médium colocar sua mão com um lápis sobre o papel, e o Espírito a fazia agir automaticamente.

Ao lado das pessoas frívolas, que passavam seu tempo interrogando os Espíritos sobre seus problemas amorosos, ou sobre um objeto perdido, espíritos sérios, sábios, pensadores, atraídos pelo ruído que se fazia em torno desses fenômenos, resolveram estudá-los cientificamente, para colocar seus concidadãos em guarda contra aquilo que chamavam de uma folia contagiosa. Em 1856, o juiz Edmonds, jurisconsulto eminente que gozava de uma autoridade incontestável no Mundo Novo, publicou uma obra sobre as pesquisas que havia empreendido com a idéia de demonstrar a falsidade dos fenômenos espíritas; o resultado final foi diametralmente oposto e o juiz Edmonds reconheceu a realidade dessas surpreendentes manifestações. O professor Mapes que ensinava Química na Academia Nacional dos Estados Unidos, se entregou a uma investigação rigorosa que terminou, como a precedente, em uma constatação arrazoada, segundo a qual os fenômenos eram devidos à intervenção dos Espíritos. Mas o que produziu maior efeito, foi à conversão às novas idéias do célebre Robert Hare, professor da Universidade da Pensilvânia, que experimentou cientificamente o movimento das mesas e consignou suas pesquisas, em 1856, em um volume intitulado: Investigações experimentais da manifestação Espírita.

Desde então, a batalha entre os incrédulos e os crentes se engajou a fundo. Escreventes, sábios, oradores, homens da igreja, se lançaram na refrega, e para dar uma idéia do desenvolvimento tomado pela polêmica, é suficiente recordar que já em 1854, uma petição assinada por 15000 nomes de cidadãos, tinha sido apresentada ao Congresso sediado em Washington rogando nomear uma comissão encarregada de estudar o “moderno espiritualismo” (este o nome dado na América ao Espiritismo). Essa demanda foi repelida pela assembléia, mas o impulso tinha sido dado e viu-se surgir sociedades que fundaram jornais onde se continua a guerra contra os incrédulos. Em 1852, teve lugar em Cleveland o 1º Congresso “Espírita” (a palavra ainda não tinha sido inventada). Os Espíritas americanos enviaram à comitiva do Congresso médiuns da velha Europa. Tinham feito girar as mesas na França desde 1853. Em todas as classes da sociedade não se falava senão dessa novidade; Não se abordava quase nada sem a pergunta sacramental: “Bem! Você faz girar as mesas?” Depois, como tudo que é da moda, após um momento de graça, as mesas cessaram de ocupar a atenção, que se transferiu para outros assuntos. Essa mania de fazer girar as mesas teve todavia um resultado importante, que foi o de fazer as pessoas refletirem muito sobre a possibilidade das relações entre mortos e vivos.

Em 1854, se contava então mais de 3.000.000 de adeptos na América e uma dezena de milhares de médiuns. Os adeptos se tornaram igualmente numerosos na França, mas faltava uma explicação verdadeira, teórica e prática, do estranho fenômeno. É nesse momento que Allan Kardec que se interessava havia trinta anos pelos fenômenos ditos do magnetismo animal, do hipnotismo e do sonambulismo, e que não via nos novos fenômenos senão um ‘conto para dormir em pé’ assistiu a várias sessões espíritas, a fim de estudar de perto o fundamento dessas aparições. Longe de ser um entusiasta dessas manifestações, e absorvido por suas outras ocupações, estava a ponto de os abandonar quando lhe remeteram cinqüenta cadernos de comunicações diversas recebidas durante cinco anos e lhe pediram que as sintetizasse : assim nasceu o Livro dos Espíritos.André Moreil escreveu que, estudando pelo método positivista e codificando o Espiritismo, « Allan Kardec o salvou do perigo de ser uma simples fantasia, um divertimento de salão. »

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