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sábado, 23 de abril de 2011

A DOR

Léon Denis

Tudo o que vive neste mundo, natureza, animal, homem, sofre e, todavia, o amor é a lei do Universo e por amor foi que Deus formou os seres. Contradição aparentemente horrível, problema angustioso, que perturbou tantos pensadores e os levou à dúvida e ao pessimismo.
O animal está sujeito à luta ardente pela vida. Entre as ervas do prado, as folhas e a ramaria dos bosques, nos ares, no seio das águas, por toda a parte desenrolam-se dramas ignorados. Em nossas cidades prossegue sem cessar a hecatombe de pobres animais inofensivos, sacrificados às nossas necessidades ou entregues nos laboratórios ao suplício da vivissecção*.
Quanto à Humanidade, sua história não é mais que um longo martirológio. Através dos tempos, por cima dos séculos, rola a triste melopéia dos sofrimentos humanos; o lamento dos desgraçados sobre com uma intensidade dilacerante, que tem a regularidade de uma vaga.
A dor segue todos os nossos passos; espreita-nos em todas as voltas do caminho. E, diante desta esfinge que o fita com seu olhar estranho, o homem faz a eterna pergunta: Por que existe a dor?
É, no que lhe concerne, uma punição, uma expiação, como o dizem alguns? É a reparação do passado, o resgate das faltas cometidas? Fundamentalmente considerada, a dor é uma lei de equilíbrio e educação. Sem dúvida, as falhas do passado recaem sobre nós com todo o seu peso e determinam as condições de nosso destino. O sofrimento não é, muitas vezes, mais do que a repercussão das violações da ordem eterna cometidas; mas, sendo partilha de todos, deve ser considerado como necessidade de ordem geral, como agente de desenvolvimento, condição do progresso. Todos os seres têm de, por sua vez, passar por ele. Sua ação é benfazeja para quem sabe compreendê-lo; mas, somente podem compreendê-lo aqueles que lhe sentiram os poderosos efeitos. É principalmente a esses, a todos aqueles que sofrem, têm sofrido ou são dignos de sofrer que dirijo estas páginas.
A dor e o prazer são as duas formas extremas da sensação. Para suprimir uma ou outra seria preciso suprimir a sensibilidade. São, pois, inseparáveis em princípio e ambos necessários à educação do ser, que, em sua evolução, deve experimentar todas as formas ilimitadas, tanto do prazer como da dor.
A dor física produz sensações; o sofrimento moral produz sentimentos.
Mas, como já vimos, no sensório íntimo, sensação e sentimento confundem-se e são uma só e mesma coisa.
O prazer e a dor estão, pois, muito menos nas coisas externas do que em nós mesmos; incumbe, pois, a cada um de nós, regulando suas sensações, disciplinando seus sentimentos, dominar umas e outras e limitar-lhes os efeitos.
Epíteto dizia: “As coisas são apenas o que imaginamos que são.” Assim, pela vontade podemos domar, vencer a dor ou, pelo menos, fazê-la redundar em nosso proveito, fazer dela meio de elevação.
A idéia que fazemos da felicidade e da desgraça, da alegria e da dor, varia ao infinito segundo a evolução individual. A alma pura, boa e sábia não pode ser feliz à maneira da alma vulgar. O que encanta uma, deixa a outra indiferente. À medida que se sobe, o aspecto das coisas muda. Como a criança que, crescendo, deixa de lado os brinquedos que a cativaram, a alma que se eleva procura satisfações cada vez mais nobres, graves e profundas. O Espírito que julga com superioridade e considera o fim grandioso da vida achará mais felicidade, mais serena paz num belo pensamento, numa boa obra, num ato de virtude e até na desgraça que purifica, do que em todos os bens materiais e no brilho das glórias terrestres, porque estas o perturbam, corrompem, embriagam ficticiamente.
É muito difícil fazer entender aos homens que o sofrimento é bom. Cada qual quereria refazer e embelezar a vida à sua vontade, adorná-la com todos os deleites, sem pensar que não há bem sem dor, ascensão sem suores e esforços.
O gênio não é somente o resultado de trabalhos seculares; é também a apoteose, a coroação de sofrimento. De Homero a Dante, a Camões, a Tasso, a Mílton, todos os grandes homens, como eles, têm sofrido. A dor fez-lhes vibrar a alma, inspirou-lhes a nobreza dos sentimentos, a intensidade da emoção que souberam traduzir com os acentos do gênio e que os imortalizou. É na dor que mais sobressaem os cânticos da alma. Quando ela atinge as profundezas do ser, faz de lá saírem os gritos eloqüentes, os poderosos apelos que comovem e arrastam as multidões.
Dá-se o mesmo com todos os heróis, com todos os grandes caracteres, com os corações generosos, com os espíritos mais eminentes. Sua elevação mede-se pela soma dos sofrimentos que passaram. Ante a dor e a morte, a alma do herói e do mártir revela-se em sua beleza comovedora, em sua grandeza trágica, que toca às vezes o sublime e o nimba de uma luz inextinguível.
Suprimi a dor e suprimireis, ao mesmo tempo, o que é mais digno de admiração neste mundo, isto é, a coragem de suportá-la. O mais nobre ensinamento que se pode apresentar aos homens não é a memória daqueles que sofreram e morreram pela verdade e pela justiça? Há coisa mais augusta, mais venerável que seus túmulos? Nada iguala o poder moral que daí provém. As almas que deram tais exemplos avultam aos nossos olhos com os séculos e parecem, de longe, mais imponentes ainda; são outras tantas fontes de força, mais imponentes ainda; são outras tantas fontes de força e beleza onde vão retemperar-se as gerações. Através do tempo e do espaço, sua irradiação, como a luz dos astros, estende-se sobre a Terra. Sua morte gerou a vida, e sua lembrança, como aroma sutil, vai lançar em toda a parte a semente dos entusiasmos futuros. É, como nos ensinaram essas almas, pela dedicação, pelo sofrimento dignamente suportados que se sobem os caminhos do céu. A história do mundo não é outra coisa mais que a sagração do espírito pela dor. Sem ela, não pode haver virtude completa, nem glória imperecível.
É necessário sofrer para adquirir e conquistar. Os atos de sacrifício aumentam as radiações psíquicas. Há como que uma esteira luminosa que segue, no Espaço, os Espíritos dos heróis e dos mártires.
Aqueles que não sofreram, mal podem compreender estas coisas, porque, neles, só a superfície do ser está arroteada, valorizada. Há falta de largueza em seus corações, de efusão em seus sentimentos; seu pensamento abrange horizontes acanhados. São necessários os infortúnios e as angústias para dar à alma seu aveludado, sua beleza moral, para despertar seus sentidos adormecidos. A vida dolorosa é um alambique onde se destilam os seres para mundos melhores. A forma, como o coração, tudo se embeleza por ter sofrido. Há, já nesta vida, um não sei quê de grave e enternecido nos rostos que as lágrimas sulcaram muitas vezes. Tomam uma expressão de beleza austera, uma espécie de majestade que impressiona e seduz.
Michelangelo adotara como norma de proceder os preceitos seguintes:
Concentra-te e faze como o escultor faz à obra que quer aformosear. Tira o supérfluo, aclara o obscuro, difunde a luz por tudo e não largues o cinzel.” Máxima sublime, que contém o princípio de todo o aperfeiçoamento íntimo. Nossa alma é nossa obra, com efeito, obra capital e fecunda, que sobrepuja em grandeza todas as manifestações parciais da Arte, da Ciência, do gênio.
A dor não fere somente os culpados. Em nosso mundo, o homem honrado sofre tanto como o mau, o que é explicável. Em primeiro lugar, a alma virtuosa é mais sensível por ser mais adiantado o seu grau de evolução; depois, estima muitas vezes e procura a dor, por lhe conhecer todo o valor.
A dor física é, em geral, um aviso da Natureza, que procura preservar-nos dos excessos. Sem ela, abusaríamos de nossos órgãos até ao ponto de os destruirmos antes do tempo. Quando um mal perigoso se vai insinuando em nós, que aconteceria se não lhe sentíssemos logo os efeitos desagradáveis? Iria cada vez lavrando mais, invadir-nos-ia e secaria em nós as fontes da vida. Às almas fracas, a doença ensina a paciência, a sabedoria, o governo de si mesmas. Às almas fortes pode oferecer compensações de ideal, deixando ao Espírito o livre vôo de suas aspirações até ao ponto de esquecer os sofrimentos físicos.
A ação da dor não é menos eficaz para as coletividades do que o é para os indivíduos. Não foi graças a ela que se constituíram os primeiros agrupamentos humanos? Não foi a ameaça das feras, da fome, dos flagelos que obrigou o indivíduo a procurar seu semelhantes para se lhe associar? Foi da vida comum, dos sofrimentos comuns, da inteligência e labor comuns que saiu toda a Civilização, com suas artes, ciências e indústrias!
A dor é como uma asa dada à alma escravizada pela carne para ajudá-la a desprender-se e a elevar-se mais alto. Por trás da dor, há alguém invisível que lhe dirige a ação e a regula
segundo as necessidades de cada um, com uma arte, uma sabedoria infinitas, trabalhando por aumentar nossa beleza interior nunca acabada, sempre continuada, de luz em luz, de virtude em virtude, até que nos tenhamos convertido em Espíritos celestes. Por mais admirável que possa parecer à primeira vista, a dor é apenas um meio de que usa o Poder Infinito para nos chamar a si e, ao mesmo tempo, tornar-nos mais rapidamente acessíveis à felicidade espiritual, única duradoura. É, pois, realmente, pelo amor que nos tem, que Deus envia o sofrimento. Fere-nos, corrige-nos como a mãe corrige o filho para educá-lo e melhorá-lo; trabalha incessantemente para tornar dóceis, para purificar e embelezar nossas almas, porque elas não podem ser verdadeiras, completamente felizes, senão na medida correspondente às suas perfeições.
À medida que avançamos na vida, as alegrias diminuem e as dores aumentam; o corpo e o fardo da vida tornam-se mais pesados. Quase sempre a existência começa na felicidade e finda na tristeza. O declínio traz, para a maior parte dos homens, o período moroso da velhice com suas lassidões, enfermidades e abandonos. As luzes apagam-se; as simpatias e as consolações retiram-se; os sonhos e as esperanças desvanecem-se; abrem-se, cada vez mais numerosas, as covas em roda de nós. É então que vêm as longas horas de imobilidade, inação, sofrimento; obrigam-nos a refletir, a passar muitas vezes em revista os atos e as lembranças de nossa vida. É uma prova necessária para que a alma, antes de deixar seu invólucro, adquira a madureza, o critério e a clarividência das coisas que serão o remate de sua carreira terrestre. Por isso, quando amaldiçoamos as horas aparentemente estéreis e desoladas da velhice enferma, solitária, desconhecemos um dos maiores benefícios que a Natureza nos roporciona; esquecemos que a velhice dolorosa é o cadinho onde se completam as purificações.
Nesse momento da existência, os raios e as forças que, durante os anos da juventude e da virilidade, dispersávamos para todos os lados em nossa atividade e exuberância, concentram-se, convergem para as profundezas do ser, ativando a consciência e proporcionando ao homem mais sabedoria e juízo. Pouco a pouco vai-se fazendo a harmonia entre os nossos pensamentos e as radiações externas; a melodia íntima afina com a melodia divina.
Há, então, na velhice resignada, mais grandeza e mais serena beleza que no brilho da mocidade e no vigor da idade madura. Sob a ação do tempo, o que há de profundo, de imutável em nós, desprende-se e a fronte dos velhos aureola-se de claridades do Além.
A todos aqueles que perguntam: Para que serve a dor? Respondo: Para polir a pedra, esculpir o mármore, fundir o vidro, martelar o ferro. Serve para edificar e ornar o templo magnífico, cheio de raios, de vibrações, de hinos, de perfumes, onde se combinam todas as artes para exprimirem o divino, prepararem a apoteose do pensamento consciente, celebrarem a libertação do Espírito!
E vede qual o resultado obtido! Com o que eram em nós elementos esparsos, materiais informes e, às vezes até, o vicioso e decaído, ruínas e destroços, a dor levantou, construiu no coração do homem um altar esplêndido à Beleza Moral, à Verdade Eterna!
A dor será necessária enquanto o homem não tiver posto o seu ensamento e os seus atos de acordo com as leis eternas; deixará de se fazer sentir logo que se fizer a harmonia. Todos os nossos males provêm de agirmos num sentido oposto à corrente divina; se tornarmos a entrar nessa corrente, a dor desaparece com as causas que a fizeram nascer.
Por muito tempo ainda a Humanidade terrestre, ignorante das leis superiores, inconsciente do futuro e do dever, precisará da dor para estimulá-la na sua via, para transformar o que nela predomina, os instintos primitivos e grosseiros, em sentimentos puros e generosos. Por muito tempo terá o homem de passar pela iniciação amarga para chegar ao conhecimento de si mesmo e do alvo a que deve mirar. Presentemente ele só cogita de aplicar suas faculdades e energias em combater o sofrimento no plano físico, a aumentar o bem-estar e a riqueza, a tornar mais agradáveis as condições da vida material; mas, será em vão. Os sofrimentos poderão variar, deslocar-se,mudar de aspecto; a dor persistirá, enquanto o egoísmo e o interesse regerem
as sociedades terrestres, enquanto o pensamento se desviar das coisas profundas, enquanto a flor da alma não tiver desabrochado. Ó vós todos que vos queixais amargamente das decepções, das pequeninas misérias, das tribulações de que está semeada toda a existência e que vos
sentis invadidos pelo cansaço e pelo desânimo: se quereis novamente achar a resolução e a coragem perdidas, se quereis aprender a afrontar alegremente a adversidade, a suportar resignados a sorte que vos toca, lançai um olhar atento em roda de vós!
Considerai as dores tantas vezes ignoradas dos pequenos, dos deserdados, os sofrimentos de milhares de seres que são homens como vós; considerai estas aflições sem conta; cegos privados do raio que guia e conforta, paralíticos impotentes, corpos que a existência torceu, ancilosou, quebrou, que padecem de males hereditários! E os que carecem do necessário, sobre quem sopra, glacial, o inverno! Pensai em todas essas vidas tristes, obscuras, miseráveis; comparai vossos males muitas vezes imaginários com as torturas de vossos irmãos de dor, e julgar-vos-eis menos infelizes,ganhareis paciência e coragem e de vosso coração descerá sobre todos os peregrinos da vida, que se arrastam acabrunhados no caminho árido, o sentimento de uma piedade sem limites e de um amor imenso!
Às vezes julgamo-nos capazes e dignos de chegar às grandes altitudes, e,sem o sabermos, mil cadeias acorrentam-nos ainda a este planeta inferior.
Não compreendemos o amor em sua essência sublime, nem o sacrifício como é praticado nas Humanidades purificadas, em que ninguém vive para si ou para alguns, mas para todos. Ora, só os que estão preparados para tal vida podem possuí-la. Para nos tornarmos dignos dela, será preciso desçamos de novo ao cadinho, à fornalha, onde se fundirão como cera as durezas do nosso coração.
E, quando tiverem sido rejeitadas, eliminadas as escórias de nossa alma, quando nossa essência estiver livre de liga, então Deus nos chamará para uma vida mais elevada, para uma tarefa mais bela.
O mal moral existe na alma somente em suas dissonâncias com a harmonia divina. Mas, à medida que ela sobe para uma claridade mais viva, para uma verdade mais ampla, para uma sabedoria mais perfeita, as causas do sofrimento vão-se atenuando, ao mesmo tempo que se dissipam as ambições vãs, os desejos materiais. E de estância em estância, de vida em vida, ela penetra na grande luz e na grande paz onde o mal é desconhecido e onde só reina o bem!



(Léon Denis - Obra: O Problema do Ser, do Destino e da Dor)

sábado, 20 de novembro de 2010

EVOLUÇÃO DO PRINCÍPIO INTELIGENTE

EVOLUÇÃO DO PRINCÍPIO INTELIGENTE
ENTREVISTADO: JORGE ANDRÉA DOS SANTOS


RCE - A resposta à questão 23 de O Livro dos Espíritos diz que o espírito é o princípio inteligente do universo. Então existe alguma coisa não inteligente no universo? O que se entende aí por inteligência, já que, na resposta à questão 25, está dito que a união do espírito e da matéria é necessária para dar inteligência à matéria?

 JAS - Hoje nós sabemos que não existem grandes diferenças entre matéria e organização espiritual, que uma é conseqüência da coagulação da outra. E, depois,  deve existir no mundo, de um modo geral,  aquilo que chamamos energias divinas, campo formador, campo cobertor, campo donde tudo se deriva, porque este campo tem condições inteligentes e porque toda causa resultante desses elementos são efeitos absolutamente inteligentes.

RCE - Então existe alguma coisa não inteligente no universo?

 JAS - Não. Porque a coisa mais simples que existe, chamada átomo, que hoje já se sabe não ser  tão simples, porque ele já vem de elementos outros chamados cordas, super cordas - que são campos vibratórios ainda não coaguláveis, ainda não organizados como átomos - esses elementos são absolutamente cheios de vida, porque estão balsamizados por esse campo de energia, daí nós não podermos dizer que há uma diferença entre matéria e espírito, mas que a matéria é uma consequência desta organização espiritual. De maneira que a resposta seria que tudo tem a sua consequência.

RCE - Fala-se hoje em “consciência do átomo”. Tem isso a ver com a presença do princípio inteligente na base mesma da estrutura material?

JAS - É que o átomo está mergulhado nesse grande campo. Se o átomo está mergulhado nesse grande campo, ele está submetido a isso.  Hoje nós vemos pesquisas notabilíssimas em que se mexe com a organização atômica; o seu par, inclusive fora de qualquer distância, repercute e dá um efeito, uma resposta precisa desse acontecimento. A essa inteligência que está localizada, ela vai se situando lentamente porque vem desse outro campo onde ela está mergulhada, onde nós vivemos, que é o mundo de totalidade. Que energia é essa? Divina. É como vemos Deus. Ele está em tudo, por quê? É o grande campo, e a menor fatia dessa vibração é inteligente.

RCE - Então isso corrobora “o nele somos, nele existimos, nele nos movemos”.

JAS – É claro!

RCE - A “inteligência” que se encontra no reino mineral aparece em níveis diferenciados nos demais reinos da criação? O surgimento da vida e suas propriedades como, por exemplo, o instinto, é indicação de evolução do princípio inteligente? Podemos dizer, no reino hominal, que a inteligência é o instinto que evoluiu?

JAS - Sem dúvida alguma que viemos desta contingência porque, se no reino mineral houve uma pequena coagulação dessas grandes energias, já em formação, que também se vê nos princípios da vida atômica dos vegetais, como é que esse elemento tem o caminho preciso para alguma coisa? Aí tem o nascimento daquilo de que precisamos, que é o processo que vai alcançar o período hominal, que seria o resultado de toda essa totalidade de vivência que se passa nos reinos da natureza, isto é, forças de coesão e atração no mineral, sensibilidade nos vegetais, instinto nos animais, e o descortinar da inteligência no hominal.

Tem-se, porém, a considerar o seguinte: este foco inicial que vai se formando, ainda não o podemos considerar como espírito porque faz parte de uma família. É aquilo que os orientais com muita precisão chamavam “alma grupo da espécie”.
Essa alma grupo, pouco a pouco, vai começando a se diferenciar.
 É como se fosse um lençol todo cravejado de pequenas condensações e que são futuros espíritos saindo da alma grupo, e isso vai ser encontrado, na nossa natureza, nos lacertídeos, nas iguanas, quando já começa essa diferença, porque até antes deles tudo é alma grupo da espécie, a espécie funciona com a totalidade.
Mas por que isso acontece? Porque na matéria há elementos que podem já conter esse pequeno grupo, esse pequeno ponto, esse elemento inicial que seria o espírito, com instinto, etc.
E que elemento é esse na matéria que se formou? A glândula pineal, que surge sob a forma, ainda muito simples, com pequenas células chamadas “o olho pineal”, depois é que vai se formando, etc.

RCE - Esse seu conceito preciso sobre alma grupo, reportando-se aos princípios orientais, tem uma distância conceitual do que hoje alguns companheiros nossos no movimento espírita chamam de alma grupo dos cães, dos equinos...?

JAS - Eles colocam também nessa posição, que seria uma posição diversa, que seria mais ao que se poderia dizer daquele tipo de espécie; aquelas almas que estão lá, aqueles grupos espirituais que estão lá já agregados por afinidade, também podem ser chamados dessa forma.

RCE - Mas antes ainda não há essa agregação por afinidade. Ainda é aquela parte inicial em que seria uma espécie de emanação da inteligência causa primária de todas as coisas?

JAS - Exato. E tem mais o seguinte, nesses elementos, vai-se formando a afetividade, aos poucos, pelos processos instintivos, lentamente.

RCE - Podemos dizer que o limite superior da progressão evolutiva do princípio inteligente, uma vez atingido, faz surgir o espírito individualizado?

JAS - Claro que sim, porque aí vai um espírito que já está começando a tomar elementos que lhe são próprios. Para você incorporar onde? Eu gostaria de saber.
 Essa é a função nossa espiritual. Vamos dizer que o espírito já esteja na zona hominal, que é a zona com a qual convivemos, em que já estamos procurando evoluir, que já tem essa individualidade. E por que isso?
 Deve ter uma grande finalidade isso. O que representa isso dentro desse universo, dentro do desconhecido, dentro da eternidade, dentro desse infinito que não se sabe definir? Os físicos quânticos são altamente inteligentes porque colocam tudo isso em fórmulas matemáticas. Mas quando você pede a alma da fórmula matemática já fica mais difícil dizer o que é.

RCE - Somos criados simples e ignorantes. Qual o limite superior da nossa progressão evolutiva e como poderemos alcançá-lo?

JAS - Nós vamos saindo, pouco a pouco, da formação instintiva e quanto mais avançamos no processo evolutivo, esses instintos vão sendo então formados em elementos mais responsáveis e aí entra o processo do livre-arbítrio.
Quanto menos instinto por evolução, mais o livre arbítrio existe aberto para o indivíduo fazer suas escolhas.
 Isso se deve a uma grande finalidade, porque já se alcança uma individualidade, tem-se um alargamento de conhecimento, já se tem as grandes responsabilidades.
E isso nós vemos agora nessa fase de transformação humana que anda por aí dentro das coisas. Há indivíduos que estão saindo dessa faixa instintiva e caminhando para outras dimensões de conhecimento.
 Não mais as análises, os detalhes e sim a síntese do processo em que os instintos desembocam na quarta dimensão espiritual. Nessa fase mais evoluída, o indivíduo não precisa mais da análise, ele já sabe o que é, então ele está partindo para outro elemento com outras condições, buscando novas intenções desconhecidas no momento por nós. Então já se fica com dificuldade e com muitas limitações, porque já se tem o livre-arbítrio, já há essa dimensão maior. E como é que se vai adiante?
Se começamos a navegar nesses elementos que conhecemos o que é, não precisamos analisar as coisas, já sabemos o que é, apenas dizemos. Há muitos indivíduos, hoje, encarnados, alguns da fase filosófica, que, perguntado, dizem “eu não posso provar, mas eu sei que é”. Ele não precisa analisar mais, ele não sabe qual é a análise daquilo, ele vai e diz: “a verdade é essa, eu sei que é”.

RCE - Esse nível de atividade intelectual, no plano da terra atualmente, que já vimos transparecer em algumas criaturas, então seria não só o embrião, mas já a anunciação, eventualmente, e até a consubstanciação da intuição. No futuro, o homem regenerado trabalhará ao nível da intuição?

JAS - Junto da intuição vem a afetividade e o amor. Isso junto alarga o novo conhecimento da intuição, que é a próxima fase que está nos esperando. Os grandes raciocínios humanos estão no processo intuitivo e isso é comum entre os companheiros nossos. Esse negócio de “eu tive um palpite”.
Às vezes não é palpite, às vezes é intuição e, às vezes, é palpite mesmo. É preciso muito cuidado com isso. Às vezes o sujeito tem certeza do processo e está certo. Quanta coisa o nosso Kardec falou e que hoje a ciência está mostrando! Que intuição era essa dele? Um homem evoluído, um homem com outras condizências. Também pra ele ter aquela perceptibilidade e inserir aquela totalidade com aquele pouco tempo que ele teve na Terra, com aqueles elementos todos...

RCE - É próprio de uma inteligência que trabalha ao nível da síntese. Aliás, toda a codificação é uma síntese. Tanto é síntese que todas as obras subsidiárias da Doutrina, que vieram depois, são desdobramentos nobres, valorosíssimos! Não estamos usando síntese como sinônimo de resumo, mas sim como nível de capacidade intelectual, de habilidades intelectuais na estrutura do intelecto.

JAS - E esses desdobramentos podem estar num infinito fenomênico.

Fonte: Revista Cultura Espírita,  Setembro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

ENTREVISTADO: JORGE ANDRÉA DOS SANTOS TEMA: EVOLUÇÃO DO PRINCÍPIO INTELIGENTE


ENTREVISTADO: JORGE ANDRÉA DOS SANTOS
TEMA: EVOLUÇÃO DO PRINCÍPIO INTELIGENTE

RCE - A resposta à questão 23 de O Livro dos Espíritos diz que o espírito é o princípio inteligente do universo. Então existe alguma coisa não inteligente no universo? O que se entende aí por inteligência, já que, na resposta à questão 25, está dito que a união do espírito e da matéria é necessária para dar inteligência à matéria?

 JAS - Hoje nós sabemos que não existem grandes diferenças entre matéria e organização espiritual, que uma é conseqüência da coagulação da outra. E, depois,  deve existir no mundo, de um modo geral,  aquilo que chamamos energias divinas, campo formador, campo cobertor, campo donde tudo se deriva, porque este campo tem condições inteligentes e porque toda causa resultante desses elementos são efeitos absolutamente inteligentes.

RCE - Então existe alguma coisa não inteligente no universo?

 JAS - Não. Porque a coisa mais simples que existe, chamada átomo, que hoje já se sabe não ser  tão simples, porque ele já vem de elementos outros chamados cordas, super cordas - que são campos vibratórios ainda não coaguláveis, ainda não organizados como átomos - esses elementos são absolutamente cheios de vida, porque estão balsamizados por esse campo de energia, daí nós não podermos dizer que há uma diferença entre matéria e espírito, mas que a matéria é uma consequência desta organização espiritual. De maneira que a resposta seria que tudo tem a sua consequência.

RCE - Fala-se hoje em “consciência do átomo”. Tem isso a ver com a presença do princípio inteligente na base mesma da estrutura material?

JAS - É que o átomo está mergulhado nesse grande campo. Se o átomo está mergulhado nesse grande campo, ele está submetido a isso.  Hoje nós vemos pesquisas notabilíssimas em que se mexe com a organização atômica; o seu par, inclusive fora de qualquer distância, repercute e dá um efeito, uma resposta precisa desse acontecimento. A essa inteligência que está localizada, ela vai se situando lentamente porque vem desse outro campo onde ela está mergulhada, onde nós vivemos, que é o mundo de totalidade. Que energia é essa? Divina. É como vemos Deus. Ele está em tudo, por quê? É o grande campo, e a menor fatia dessa vibração é inteligente.

RCE - Então isso corrobora “o nele somos, nele existimos, nele nos movemos”.

JAS – É claro!

RCE - A “inteligência” que se encontra no reino mineral aparece em níveis diferenciados nos demais reinos da criação? O surgimento da vida e suas propriedades como, por exemplo, o instinto, é indicação de evolução do princípio inteligente? Podemos dizer, no reino hominal, que a inteligência é o instinto que evoluiu?

JAS - Sem dúvida alguma que viemos desta contingência porque, se no reino mineral houve uma pequena coagulação dessas grandes energias, já em formação, que também se vê nos princípios da vida atômica dos vegetais, como é que esse elemento tem o caminho preciso para alguma coisa? Aí tem o nascimento daquilo de que precisamos, que é o processo que vai alcançar o período hominal, que seria o resultado de toda essa totalidade de vivência que se passa nos reinos da natureza, isto é, forças de coesão e atração no mineral, sensibilidade nos vegetais, instinto nos animais, e o descortinar da inteligência no hominal.

Tem-se, porém, a considerar o seguinte: este foco inicial que vai se formando, ainda não o podemos considerar como espírito porque faz parte de uma família. É aquilo que os orientais com muita precisão chamavam “alma grupo da espécie”.
Essa alma grupo, pouco a pouco, vai começando a se diferenciar.
 É como se fosse um lençol todo cravejado de pequenas condensações e que são futuros espíritos saindo da alma grupo, e isso vai ser encontrado, na nossa natureza, nos lacertídeos, nas iguanas, quando já começa essa diferença, porque até antes deles tudo é alma grupo da espécie, a espécie funciona com a totalidade.
Mas por que isso acontece? Porque na matéria há elementos que podem já conter esse pequeno grupo, esse pequeno ponto, esse elemento inicial que seria o espírito, com instinto, etc.
E que elemento é esse na matéria que se formou? A glândula pineal, que surge sob a forma, ainda muito simples, com pequenas células chamadas “o olho pineal”, depois é que vai se formando, etc.

RCE - Esse seu conceito preciso sobre alma grupo, reportando-se aos princípios orientais, tem uma distância conceitual do que hoje alguns companheiros nossos no movimento espírita chamam de alma grupo dos cães, dos equinos...?

JAS - Eles colocam também nessa posição, que seria uma posição diversa, que seria mais ao que se poderia dizer daquele tipo de espécie; aquelas almas que estão lá, aqueles grupos espirituais que estão lá já agregados por afinidade, também podem ser chamados dessa forma.

RCE - Mas antes ainda não há essa agregação por afinidade. Ainda é aquela parte inicial em que seria uma espécie de emanação da inteligência causa primária de todas as coisas?

JAS - Exato. E tem mais o seguinte, nesses elementos, vai-se formando a afetividade, aos poucos, pelos processos instintivos, lentamente.

RCE - Podemos dizer que o limite superior da progressão evolutiva do princípio inteligente, uma vez atingido, faz surgir o espírito individualizado?

JAS - Claro que sim, porque aí vai um espírito que já está começando a tomar elementos que lhe são próprios. Para você incorporar onde? Eu gostaria de saber.
 Essa é a função nossa espiritual. Vamos dizer que o espírito já esteja na zona hominal, que é a zona com a qual convivemos, em que já estamos procurando evoluir, que já tem essa individualidade. E por que isso?
 Deve ter uma grande finalidade isso. O que representa isso dentro desse universo, dentro do desconhecido, dentro da eternidade, dentro desse infinito que não se sabe definir? Os físicos quânticos são altamente inteligentes porque colocam tudo isso em fórmulas matemáticas. Mas quando você pede a alma da fórmula matemática já fica mais difícil dizer o que é.

RCE - Somos criados simples e ignorantes. Qual o limite superior da nossa progressão evolutiva e como poderemos alcançá-lo?

JAS - Nós vamos saindo, pouco a pouco, da formação instintiva e quanto mais avançamos no processo evolutivo, esses instintos vão sendo então formados em elementos mais responsáveis e aí entra o processo do livre-arbítrio.
Quanto menos instinto por evolução, mais o livre arbítrio existe aberto para o indivíduo fazer suas escolhas.
 Isso se deve a uma grande finalidade, porque já se alcança uma individualidade, tem-se um alargamento de conhecimento, já se tem as grandes responsabilidades.
E isso nós vemos agora nessa fase de transformação humana que anda por aí dentro das coisas. Há indivíduos que estão saindo dessa faixa instintiva e caminhando para outras dimensões de conhecimento.
 Não mais as análises, os detalhes e sim a síntese do processo em que os instintos desembocam na quarta dimensão espiritual. Nessa fase mais evoluída, o indivíduo não precisa mais da análise, ele já sabe o que é, então ele está partindo para outro elemento com outras condições, buscando novas intenções desconhecidas no momento por nós. Então já se fica com dificuldade e com muitas limitações, porque já se tem o livre-arbítrio, já há essa dimensão maior. E como é que se vai adiante?
Se começamos a navegar nesses elementos que conhecemos o que é, não precisamos analisar as coisas, já sabemos o que é, apenas dizemos. Há muitos indivíduos, hoje, encarnados, alguns da fase filosófica, que, perguntado, dizem “eu não posso provar, mas eu sei que é”. Ele não precisa analisar mais, ele não sabe qual é a análise daquilo, ele vai e diz: “a verdade é essa, eu sei que é”.

RCE - Esse nível de atividade intelectual, no plano da terra atualmente, que já vimos transparecer em algumas criaturas, então seria não só o embrião, mas já a anunciação, eventualmente, e até a consubstanciação da intuição. No futuro, o homem regenerado trabalhará ao nível da intuição?

JAS - Junto da intuição vem a afetividade e o amor. Isso junto alarga o novo conhecimento da intuição, que é a próxima fase que está nos esperando. Os grandes raciocínios humanos estão no processo intuitivo e isso é comum entre os companheiros nossos. Esse negócio de “eu tive um palpite”.
Às vezes não é palpite, às vezes é intuição e, às vezes, é palpite mesmo. É preciso muito cuidado com isso. Às vezes o sujeito tem certeza do processo e está certo. Quanta coisa o nosso Kardec falou e que hoje a ciência está mostrando! Que intuição era essa dele? Um homem evoluído, um homem com outras condizências. Também pra ele ter aquela perceptibilidade e inserir aquela totalidade com aquele pouco tempo que ele teve na Terra, com aqueles elementos todos...

RCE - É próprio de uma inteligência que trabalha ao nível da síntese. Aliás, toda a codificação é uma síntese. Tanto é síntese que todas as obras subsidiárias da Doutrina, que vieram depois, são desdobramentos nobres, valorosíssimos! Não estamos usando síntese como sinônimo de resumo, mas sim como nível de capacidade intelectual, de habilidades intelectuais na estrutura do intelecto.

JAS - E esses desdobramentos podem estar num infinito fenomênico.

Fonte: Revista Cultura Espírita,  Setembro de 2010
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